23/04/2015

Vegetariana, mas pouco


Diz que sou uma “veg part-time”. Pois é, espantem-se, porque até eu fiquei espantada por já existir uma denominação para a minha dieta alimentar. E é assim que num dia a vida corre na paz do Senhor e no seguinte somos confrontados com a inesperada realidade que afinal fazemos parte de uma tribo...alimentar, ainda por cima! 

Ora parece que as minhas convicções alimentares são, pelo menos em Itália, partilhadas por umas boas centenas de milhar de pessoas a quem a carne desce cada vez menos pelo goto.

Não se pense que sou pessoa de moral elevada o suficiente para deixar de comer carne em defesa da integridade física dos animais – não sou assim tão boazinha -, porque os limites da minha ética jamais me fariam virar costas a um bife na pedra. Mas admito que para digerir um naco de carne, por vezes, o físico parece levar-me mais energia do que aquela que supostamente me deveria dar.

Foi num artigo da “Style” italiana que descobri que esta prática “vegetariana, mas pouco” está a ganhar adeptos. O que em outras palavras significa que está na moda “ser” mais ou menos vegetariano, ou pelo menos, dizer que não se come carne mais que uma vez por mês.

Ou seja, aquilo que deveria ser somente uma consequência de gostar-se ou desgostar-se, ou até de escolha pessoal – por razões éticas ou de funcionamento pessoal do organismo – transforma-se de repente num motivo para ajuízar o alheio: “Olha mais uma pateta que diz que não come carne...punha-lhe uma alheira frita à frente ías ver!” ou “Aquela come carne...assassina de focas bébés!”

A probabilidade da alheira se teletransportar para o meu estômago em nanosegundos é gigantesca, mas a probabilidade de não comer carne nas quatro semanas seguintes a emborcar uma alheira é igualmente elevada.

O artigo para além de expôr escolhas e razões dos famosos, italianos e de gabarito internacional, que haviam modificado os seus hábitos alimentares, excluindo proteínas animais e seus derivados, em full ou part-time, explicava também como se dividia o “emiciclo” do Lobby dos vegetais. Isto há estômagos para tudo. Há quem aceite alguma coisa e há quem pouco ou nada aceite. Há quem escolha os extremos do “emiciclo” – os veganos, os crudistas, os frutarianos, etc – e quem encontre a virtude a meio caminho. Há quem respeite as escolhas dos outros, há quem as condene como se fosse a origem de todo o mal no planeta e há quem se esteja perfeitamente a borrifar para tudo isto. 

Escolher o que queremos porque queremos, porque nos faz sentir bem ou mal, essa sim é a medida. Aqui, a única injustiça e único limite é quando não há escolha.

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