18/10/2014

As Meninas



A menina Jessica Athayde

Já aqui tinha dito não ser a mais fiel das seguidoras da vida e afazeres dos "so called famous" nacionais. A Jessica é uma das poucas caras que reconheço. Confesso que não sei se foi de a ver numa novela, concurso, filme ou simplesmente numa revista, mas reconheço-a. Quando vi as mais recentes fotos da Jessica a circular nas redes sociais, o meu primeiro pensamento foi "deve estar a desfilar na ModaLisboa...eh pá, o kimono é lindo! E era mesmo uma barriguinha destas que me dava jeito...!"

Mais tarde a Jessica volta a chamar a minha atenção quando nas mesmas redes sociais algumas pessoas cujas opiniões estimo bastante levantaram as suas vozes em defesa da honra "feminina" da Jessica.

Ora ao que parece, as suspostas gorduras que Jessica evidenciou em passarela, enquanto passava em bikini, enfureceram milhares de mulheres acérrimas defensoras da imagem feminina "photoshopada", atletas de alto rendimento na modalidade "peida grande colada ao sofá a papar novelas e revistas de merda" e catedráticos em "Bullying with style".
Perante a contorvérsia dou por mim a pensar "a celulite anda a foder-nos a vida".


A menina Ascia Akf

Pouco antes do "Jessica Athayde gate", estava eu a passear pelo instagram quando dou de caras com a foto de uma das bloggers de moda da minha preferência - a lindissima Ascia Akf - com um arzinho estranhamente apagado. Lá percebi que a tez cinzenta da moça não significava que estivesse de coma nos cuidados intensivos, mas tão somente uma selfie sem maquilhagem. 

Por momentos as olheiras proeminentes fizeram-me pensar na superficialidade das nossas vidas, onde deixamos de ser nós mesmas para nos tornarmos um canvas rabiscado a pastel. Mas depois reparei que o olhar doce e o sorriso feliz são efectivamente a imagem de marca de Ascia e que uma selfie sem maquilhagem não é para todas. Ali estava a maravilhosa Ascia Akf uma vez mais a surpreender-me. 

Antes de vos explicar em que outra ocasião Ascia me surpreendeu convém informar que esta moça cresceu nos Estados Unidos no seio de uma família abastada, formada em Relações Internacionais e Antropologia, casada com Ahmad com quem vive no Kuwait, Mãe de Adam de 6 meses e sendo muçulmana usa o hijab ou apenas um turbante. E foi exactamente o turbante de Ascia que chamou a minha atenção quando me cruzei com ela pela primeira vez. Passei a seguir o seu blog, instagram e a babar-me pela sua colecção infindável de lenços, sapatos e extremo bom gosto. 

Mas como eu vos dizia, a Ascia surpreendeu-me muito antes da sua selfie sem maquilhagem. 

Ora pouco depois do nascimento de Adam, Ascia postou uma foto no Instagram em que estavam enquadrados o turbante e a sua enorme testa. Na legenda, Ascia explicava que desde sempre tinha um enorme complexo em relação à sua testa ser tão grande e que usava o turbante puxado mais para a frente de modo a esconder este defeito. O nascimento do filho Adam tinha, no entanto, desencadeado um processo de reflexão que iniciava com a seguinte auto-análise: 
"como é que eu posso educar o meu filho a crescer sem deixar-se limitar por nada, por ninguém, muito menos por si mesmo, quando eu como sua mãe e seu exemplo vejo como defeito o que em mim é apenas feitio? Vou começar pelo meu Instagram, pois a partir de agora a minha testa é para se ver." 

  
As meninas que são umas meninas

Não me lembro se foi através das redes sociais, mas a probabilidade de ter chegado ao vídeo #LikeAGirl através das redes sociais é elevadíssima. Bom, para quem não conhece e para quem não irá seguir o link acima, #LikeAGirl é um vídeo promocional da Always que aborda a temática da opressão da imagem feminina na perspectiva do antes e depois da puberdade. 

Lauren Greenfield, a realizadora, pede a todos os seus entrevistados de agirem segundo o seu mote: "corre como uma menina". Elas e eles, os entrevistados, assumem de imediato esse mote como sendo depreciativo e de forma caricatural fazem figuras ridículas enquanto correm. Ora exageram nos trejeitos, ora correm com os pés de lado, ora ajeitam o cabelo enquanto se movimentam. A mesma atitude é revelada quando Lauren lhes pede para lançarem uma bola "como uma menina" ou lutarem "como uma menina"

O mais surpreendente deste vídeo é quando finalmente o mesmo mote é dado a míudas pré-puberdade, ou seja, crianças abaixo dos 12 anos para quem "correr como uma menina" significa  apenas "correr o melhor e o mais depressa que conseguires". Quando Lauren lhes pergunta se o seu mote lhes parece insultuoso, as míudas reagem apontando a falha da depreciação ao sujeito que insulta e não a si próprias ou às suas acções "como meninas"

Beyónce, tu viste isto antes de escrever o "Run the World", não viste?

Mas afinal que raio é que estas meninas estão a fazer?

A Jessica, a Ascia e as #LikeAGirl à partida só partilham o mesmo género. À partida...e à chegada! Não é preciso partilhar rigorosamente mais nada pois só o facto de sermos meninas, mulheres e moças já chega. Somos dignas representantes da condição feminina de hoje. Basta!

O nosso jogo oscila entre os dois lados do mesmo tabuleiro, de um lado a busca por ideias de beleza, saúde, expectativas sociais, do outro a busca pelo respeito, admiração, confiança e dignidade. Parece confuso mas não é. Demos à palavra hipocrisia um novo sentido, passou a ser um mote existencial: o da nossa vida!

Um ser masculino que saltita do mundo das aparências para o mundo da valorização pessoal é sedutor, um sinal de força, sucesso. Um ser feminino que faz este exercício de saltos altos é desconcertante e motivo de abate. Maior é o infortúnio se se acrescer ao final da frase "a abater pelo próprio género feminino a que pertence". Ah injustiça!

Que comportamento exigente é este para com as nossas pares que nos faz negar a nossa celulite, as nossas olheiras, a nossa corrida, o nosso chuto na bola e a nossa praticabilidade inata? 

Que hipocrisia é esta que nos faz sonhar em colocar silicone nas mamas, ter uma pele lisa sem estrias e uns abdominais de aço com pouco esforço, enfim as mesmas ambições que criticamos naquelas que para isso trabalham ou se submetem? 

Porque raio é que nos é vetada a ideia de conjugarmos num mesmo dia um photoshooting para a Playboy de manhã e a leitura de Eugénio de Andrade ao som de Schubert à noite? 

Mas a questão que me é mais dificil responder é esta: O que é que eu digo à minha filha? 
Dou-lhe a escolher a beleza da aparência física argumentando que um sorriso bonito abre muitas portas ou foco-me em enriquecer o seu intelecto argumentando a efemeridade da juventude? Porque é que a minha filha não pode ser bonita, inteligente e bem sucedida? Porque é que a minha filha não pode ser aquilo que lhe der bem na veneta, em toda a consciência e sem correr o risco de ser assediada moralmente (tradução directa do bullying, para os que ainda não estão familiarizados)?

Ao contrário do Machismo, conceito comportamental opressivo e difamatório em relação à mulher, o Feminismo é um movimento social que visa a liberdade da mulher em relação à opressão política, sócio-económica e cultural. Valores morais (ou imorais dependendo da perspectiva) e sobrevivência (ao género comidinha para a boca) chocam-se. Até no significado da nomenclatura estamos em desigualdade. 

Eu não sei se ser Homem é melhor que ser-se Mulher. Também não sei se haverá alguma Mulher no mundo que fizesse melhor que eu o meu papel de Mulher. Mas sei que há muitas mulheres a precisar de apoiar as outras mulheres, porque as que estão a fazer alguma coisa para mudar o statos quo estão a lutar com as armas que dispõe, seja um desfile em biquini com meio litro de celulite, seja numa selfie sem maquilhagem, seja num discurso feminista nas Nações Unidas, seja a criar um hino de libertação em versão hip hop ou a correr 5km todos os dias em busca de um pouco de solidão para reflectir. 

Somos muitas, mas parecemos tão poucas que dá a sensação que estamos sozinhas. Somos umas meninas e não deviamos ter medo de o ser.

Sem comentários:

Publicar um comentário