09/04/2014

Sobre a barriga alheia

 Photo credits: Instagram 
@carolinapatrocinio @lenaperminova @balletbeautiful

Não conheço a Carolina Patrocínio, não sei muito bem o que faz, mea culpa à minha longa ausência do território luso. O que sei é que quando tenho acesso às revistas cor-de-rosa portuguesas a moça está lá sempre escarrapachada, o que significa que é sobejamente conhecida pelo público português.  

Ora nos dias que passaram, a jovem entre muitas outras coisas, deu que falar. Ao que consta, Carolina deu à luz uma menina e passados poucos dias colocou no seu instagram uma foto da sua barriga pós-parto e, logo de seguida, outra foto de costas desnudas enquanto aleitava a bébé. As fotos ao invés de motivarem parabenização, motivaram uma onda de comentários irados, tudo porque a recém-Mamã terá saído do hospital dentro duns jeans tamanho 34 e como se não bastasse com um six-pack abdominal de meter respeito.  

Eu, grávida de 35 semanas - as we speak - quando vi as fotos fiquei satisfeita. Assim como fiquei satisfeita quando vi fotos da modelo Lena Perminova e da bailarina Mary Helen Bowers em pleno "estado de graça". Mas porque raio haveria de ficar satisfeita se eu nem conheço pessoalmente as criaturas!? Pois que fiquei porque sou mulher e porque estando a viver a mesma experiência e estando eu a fazê-lo de uma forma atenta e cuidada vejo nestes exemplos que o esforço feito durante este período é, sem dúvida, recompensado no final. 

Uma boa aparência física não é, nem nunca foi, apenas sorte, por muito que a genética possa ter uma cartada valente no assunto. Cuidar do físico não significa descuidar do intelecto ou da própria evolução profissional e pessoal, mas garantir que todos estes parâmetros coexistem harmoniosamente. "Mas há muito boa gente a não ter o tempo e a vidinha destas meninas", dirão alguns. Pois há. Muita gente mesmo. Mas subir escadas ao invés de subir de elevador é uma decisão que decerto não roubará uma hora a um dia sobrecarregado...isto se não estivermos a falar de subir até um 30º andar, claro. Assim como decidir entre comer uma sopa de legumes e uma maçã ou um MacDonalds acompanhado de meio litro de Coca-Cola. 

Confesso que preferiria comer o MacDonalds ao invés da sopa. Já para não dizer que alapar-me no sofá o dia todo que nem um Rajá, era o paraíso na terra. Mas facto é que enquanto a barriga cresce e o peso aumenta, eu sei que a minha coluna vai em hiperlordose e se eu não preparar diariamente o meu corpo com ginástica apropriada, natação e alimentação correcta as minhas costas, mais tarde ou mais cedo, irão doer-me. Muito. Não preciso pagar para ver.
Também sei que se a coluna me doer não irei dormir - coisa que ainda não prescindi nesta fase da minha vida - e que o sono e resmunguisse em nada contribuirão para o bom funcionamento da minha mente e consequentemente do meu organismo, este último a alojar um outro ser humano que a mim deve em exclusivo o seu bem-estar. Enfim, é todo um peixinho de rabo na boca.

É claro que me concedo momentos de fraqueza mas daí a passar a vida refugiada em desculpas a tentar justificar ao espelho a minha própria irresponsabilidade é uma enorme cretinice, sem tirar nem pôr. Faço o melhor que posso por mim e pelo bébé, consciente de que no final terei tão somente o resultado daquilo que fiz. 

No entanto, se a natureza da grávida fôr a de uma total despreocupação em relação a estes assuntos mais "mundanos" então siga a marinha, que desde que a criança nasça feliz e saudável o resto é apenas isso: o resto. E com restos não se perde muito tempo. 

Agora cá chorar sobre o leite que propositadamente se derramou, eh pá, isso é que não vale! Assim como não vale apontar o dedo a quem se dedicou esforçadamente a evitar o "irremediável".  

É óbvio que todo este cenário tem um grande aparte, o de considerar situações de foro médico que inviabilizam à partida a "maior das boa-vontades" de algumas grávidas em seguir um programa de actividade física mais salutar, mas esses casos são a excepção que a meu ver não fazem a regra.

Seja qual fôr a mulher, a gravidez é e será sempre para todas um enorme desafio físico. Nove meses podem parecer à partida um longo espaço de tempo, mas tendo em conta as gigantescas transformações físicas, psicológicas e hormonais que se sucedem eu arriscaria a defender o contrário, e dizer que é um período curtíssimo. Minhas senhoras e meus senhores, aumentar de peso e de volume a uma média desejada de 1kg por mês implica muito poder de encaixe, em todo o alcance da expressão. 

Em Nápoles, entre muitas outras pérolas, existe ainda a mentalidade de que uma grávida deve comer por dois. Oiço muitas vezes Mães experientes aconselharem-me a "não te ponhas aí com muitos paninhos quentes porque não ganhas nada com isso" porque segunda consta "assim como assim dificilmente voltarás ao físico que tinhas antes da gravidez" e por isso o melhor é "fazer os disparates todos enquanto estás grávida para que a criança nasça feliz" rematando em beleza com o mítico "quando nascer logo recuperas"

Depois, vindos de Portugal, dou de caras com textos assim como este onde se defende que o estado natural de uma grávida deve ser o queixume em nome de uma suposta normalidade humana que não se coaduna com um culto salutar do corpo humano, pois esse apela somente à inveja alheia ao invés da consciencialização harmoniosa entre corpo e mente.

É profundamente injusto que uma mulher, grávida ou não, simplesmente não possa fazer mais e melhor pelo seu físico, sem que seja classificada de fútil ou, pior, de inconsciente. Da mesma forma que é injusto impôr a todas as mulheres, grávidas ou não, um modelo de preocupação, de beleza e de  actividade física que muitas não conseguem alcançar ou simplesmente não querem alcançar. 

Mas a maior injustiça é extremar. Isso sim é que é tonto!

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