04/04/2014

As vantagens duma situação desvantajosa


Talvez eu seja um bicho estranho, mas gosto de não ser solteira. Aliás, em boa verdade, adoro. Não sinto a mais ínfima saudade de ser solteira. Mas é que não sinto nem um bocadinho assim Óóó pequenino de saudade!

Já se sabe, na vida nada é perfeito, mas pessoas há que se ajustam melhor a essa imperfeição. E, neste caso específico, em boa verdade vos digo que a minha vida de solteira era um perfeito caos, enquanto a minha vida de comprometida é imperfeitamente harmoniosa.

Filha única, rapariga trabalhadora, independente, dada às emigrações desde cedo, posso afirmar que a partilha para mim foi sempre um bicho de sete cabeças. Não que tenha sido impossível, mas incomodativa q.b...digamos assim.

Ora foi exactamente na partilha do quotidiano que a coisa deu o click e se ajustou. É que deixou de ser incomodativo: dobrar e arrumar o dobro das meias na gaveta do roupeiro; emprestar-lhe a minha Smart, que entretanto vai caíndo de podre, e ver desaparecer as moedas que deixo por lá e que serveriam para pagar a portagem mas que ao invés servem para pagar qualquer coisa"que me deu jeito" como justifica; acordar às 2 da madrugada e ir até à sala para o aconchegar com uma manta por se ter deixado adormecer enquanto "vou só ver mais um bocadinho do filme e vou já ter contigo"; aturar um qualquer familiar distante, chatinho que só visto, numa reunião familiar de comparência obrigatória; até o recorrente e sempre animador "Merda! Estou atrasado. Tratas tu disto!?" que habitualmente lixa todos os meus planos prévios.

Pode parecer uma existência pouco ambiciosa mas gosto de todos estes pequenos nadas. Sem excepção. E gosto porque faz sentido, porque as peças encaixam e porque com ele sou o que quis ser toda a minha vida: eu!

Bom, mas afinal de onde é que vem toda esta conversa? Vem dum disparate no facebook. Ora pois!
Era uma lista que afirmava qualquer coisa como "as vantagens de se ser solteira" ou coisa que o valha. A lista propriamente dita enumerava as supostas vantagens de quem vive solto que nem um passarinho em deterimento óbvio de quem já está irremediavelmente enjaulado e, por essa mesma razão, privado de viver.

As vantagens não chegariam a uma dezena e professavam impropérios como "tens mais tempo para as amigas", "decides melhor o que fazer ao dinheiro", "estás mais atenta às tuas próprias necessidades", "podes ter os amigos que quiseres", "vais onde te der na telha"...e mais umas quantas conclusões geniais.

Com ou sem namorado/marido sempre fiz o que me deu na telha, sempre fui onde bem me apeteceu, gastei o meu dinheiro nas maiores futilidades durante meses a fio e nunca, jamais, em tempo algum, as minhas necessidades deixaram de estar em primeiro plano. Fiz e faço isto tudo sem necessitar de passar cartão a rigorosamente NINGUÉM!

A ideia romântica que uma relação perfeita é apenas e somente quando o casal vive e respira em uníssono é perfeitamente estapafúrdia. Uma boa relação é quando, acima de qualquer suspeita, os dois envolvidos respeitam a liberdade individual de cada um. Não há cá um respeitar mais que o outro ou um ceder mais que o outro. Ou respeitam os dois e cedem os dois ou temos o caldo entornado.

Se é para se estar mal acompanhado, então sem sombra de dúvida que a sós se está majestosamente melhor, mas quando se inicia uma relação não se arranca com a expectativa irremediável de descambamento à partida, mas sim com a esperança de "foi desta que acertei". Por isso defendo a ideia de que o principal desafio numa relação é a construção de um espaço comum, seja ele físico e/ou abstracto. Tudo o resto são detalhes, beijinhos ou vem por acréscimo.

Se eu neste preciso instante me levantar desta cadeira e me dirigir ao mais próximo cinema para ver o filme que estiver em cartaz não tenho de me sentir na mínima das obrigações em avisar o meu companheiro e/ou, muito menos, discutir se devo ir. É uma decisão minha! No entanto, e tendo em conta que é com ele que partilho os meus dias o meu primeiro pensamento seguramente será "vou-lhe mas'é enviar uma mensagem para saber se quer vir comigo ao cinema", pois não há pessoa no mundo cuja companhia me dê maior gozo. Caramba, é do meu melhor amigo que falo!

Mais, é por ver respeitada a minha liberdade, as minhas acções, as minhas vontades, a minha maneira de ser e o meu quotidiano que escolhi partilhar todos os momentos da minha vida com ele e sem pestanejar um segundo que fosse ao tomar essa decisão.


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