08/03/2014

As boas intenções


Quando descobri que estava à espera de bébé tive uma enorme vontade de escrever sobre a gravidez aqui no blogue com a intenção de partilha da experiência. Mas não demorei muito a perceber que talvez esta fosse a altura certa para me remeter ao silêncio sobre o assunto, contrastando com uma fase naturalmente plena de dúvidas de quem nunca passou pela experiência de uma gravidez, que é o meu caso.    
De facto, posso até ostentar uma barriga, mas pelos vistos isso não significa - para a maioria das pessoas - que eu saiba da poda. Aliás, o facto de ostentar uma barriga de grávida significa exactamente o contrário - sou uma grávida, logo um ser desprovido de qualquer conhecimento sobre 
1) o estado actual do meu corpo 
2) o estado futuro do meu corpo 
3) o quanto a vida mudará após o nascimento da minha filha 
4) o que significa ter uma filha 
5) o significado da própria vida  
6) o que quer que seja.
Ser-se graciada com pérolas maternalistas como "tu logo verás o que te espera" ou "nós depois falamos" ou o meu preferido "ó minha amiga tu sabes lá o que aí vem" é constrangedor. Quando ditos por estranhos são frases ou comentários que podem/devem ser ignorados e consequentemente riscados da mente, assim como qualquer possibilidade futura de nos relacionarmos. Mas quando ditos por pessoas com quem se priva regularmente e se nutre amizade, a coisa é complicada de gerir. Porquê? É simples. Porque choca. E às vezes até magoa.
Ao longo dos meus 35 anos coleccionei experiências, umas melhores que outras, mas todas basilares para a definição do meu carácter. Em alguma altura da minha vida essas experiências foram "a minha primeira vez" e em todas tive de me adaptar, "raise to the occasion" ou em português "desenrascar-me" para evitar usar um termo mais terra-a-terra. 
Estar grávida é, primeiramente, estar na eminência de ser mãe e fazê-lo pela primeira vez é, na sua singela singulariedade, uma experiência pessoal e intransmissível. E é assim que o quero encarar. Tenho esse direito. 
Vivemos vidas diferentes logo, minhas amigas, somos pessoas naturalmente diferentes que passaremos por experiências semelhantes - como a gravidez - de formas claramente diferentes, ainda que partilhemos da mesma biologia. 
Segundo algumas opiniões estarei a fazer uma "gravidez santa", mas não por minha decisão ou forma de ser, mas tão somente porque "estás com sorte"! Lamento discordar. Sou adulta e, como tal, já passei por variadíssimos desafios. Sei que na vida tudo muda numa questão de segundos e que planear o futuro é, acima de tudo, estar preparado para a imprevisibilidade das coisas. Decidi desde o primeiro momento desta gravidez de "aliviar a pressão", encarar tudo naturalmente e integrar esta nova fase da forma mais positiva possível. Ora bem, nada disto se faz com sorte, mas sim com muita ponderação e bom senso. 
Quer isto tudo dizer que ainda que possa compreender a "boa intenção" da grande maioria dos conselhos, parece-me evidente que não posso estar à espera de dormir mais e melhor depois da minha filha nascer ou que puderei dispôr do meu tempo como ainda disponho neste momento. O mais provável é não puder ir ao cinema todas as semanas como tenho feito nos últimos dois anos da minha vida e obviamente que está fora de questão pensar que uma jantarada fora com amigos possa descambar num regresso a casa de madrugada depois duma noitada em discoteca. No entanto, o fim dessa existência supostamente "despreocupada" não precisa de ser antecipada e/ou comunicada de forma tão fatalista e até, por vezes, com pitadas de malvadez sarcástica, mascaradas de "boas intenções". Há maneiras mais positivas e construtivas de dizer as coisas, assim como há formas mais positivas e construtivas de viver as experiências mais marcantes das nossas vidas. Depende tão somente de uma escolha: a nossa.
A barriga está a crescer, a vida vai mudar e ainda bem...It's bad luck to stay in the same place to long!  

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