Mostrar mensagens com a etiqueta Cinema. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cinema. Mostrar todas as mensagens

08/04/2014

Porque é a partilhar qu'a gente s'entende #1

Depois de me ter feito suspirar toda uma adolescência, deu-lhe para "isto". E é com "isto" que eu ando a levar na televisão todos os dias...aiiiiiiiishhhhhhhh. 

24/05/2013

A profilaxia da crítica


Os críticos de cinema são gente lixada e perigosa. Eu sei, eu sei, EU SEI... não lhes devia ligar nenhuma, devia ignorá-los pura e simplesmente, mas estas línguas-viperinas apanham-me sempre distraída. Exercem em mim uma curiosidade voraz ao tolher-me a capacidade voluntária de evitar toda e qualquer referência cinematográfica crítica nos jornais e na internet. Rais'os partam!
Esta semana o veneno crítico atacou-me duas vezes e em qualquer uma delas poderia revelar-se uma mordida letal. O primeiro alvo foi La Grande Belleza de Paolo Sorrentino. 


Fiquei petrificada entre as críticas italianas e a noticiada ovação de 15 minutos pela plateia de Cannes - venha o diabo e escolha! Entrei na sala conformada com o destino negativo que estava a dar às duas horas seguintes da minha vida e sai da sala a pensar que a crítica que tinha lido se referia a um outro filme qualquer que não La Grande Belleza. E foi basicamente assim que Cannes e eu fizemos as pazes!
Fiquei feliz por ter sido uma vez mais surpreendida positivamente numa sala de cinema. La Grande Belleza é um mimo para quem gostar do cinema neo-realista dos anos 60/70 e Paolo Sorrentino é seguramente um digno sucessor dos gigantes Fellini e Rossellini. 

A segunda mordida crítica foi bem mais eficaz. Já andava a salivar há tanto tempo com os trailers do The Great Gatsby de Baz Luhrmann que assim que saíram as opiniões "alheias" lá foi a boa da menina a correr aos saltinhos e aos pulinhos.    


Mas a memória do La Grande Belleza bem fresca não me deixou abater e mesmo sabendo - segundo a famosa crítica - que o The Great Gatsby era uma cagada em três actos lá fui eu ontem para a sala sem medos. Afinal de contas, ninguém pode fazer asneira quando se trata de uma obra-prima da literatura americana cheia de referências visuais "cinem'apetecíveis". Mas à medida que as cenas do filme avançavam as opiniões maldosas soavam na minha cabeça em simultâneo. Resultado: desilusão pura e dura. Fiquei derrotada. Finalmente os críticos tinham justificada a destilação de veneno.
Mas esta manhã acordei com o filme na cabeça e não resisti ao impulso de reler excertos do livro de F.S.Fitzgerald. Ainda bem que o fiz. Percebi que Luhrmann se dedicou de alma e coração a fazer um filme duma história bigger than life. Seria impossível aumentar a genialidade de uma obra-prima! 


A probabilidade de eu ter aprendido a lição "Evitar as críticos de cinema a todo o custo" continua a ser baixa, mas a probabilidade do cinema continuar a surpreender-me é-lhe proporcionalmente inversa. E isso é uma notícia maravilhosa. 
De facto, se tivesse seguido os ditames destes parasitas nos últimos 10 meses teria ido uma única vez ao cinema. Teria visto o Lincoln de Steven Spielberg e...má'nada! Não ficaria propriamente mal servida mas teria perdido filmes fabulosos que decerto me ficarão bem mais vincados na memória.  

 

09/10/2012

Reality

Há uns dias fui ver "Reality", o mais recente filme de Matteo Garrone. "Gomorrah" continua a ser o cartão de visita deste realizador italiano, justamente aclamado sucessor do neorealismo italiano de Roberto Rosselini. Naturalmente que após realizar a obra-prima "Gomorrah" muito se esperava da nova criação. E Cannes não deixou passar a ocasião atribuindo a "Reality" o Grand Prix. Uma distinção controversa. Excepção feita à técnica de realização, a crítica não encontrou consenso em relação ao enredo: ora uma confirmação do brilhantismo de Garrone, ora um fracasso total e completo. Enfim, "Reality" é uma questão de extremos. 
Estou a viver em Nápoles desde Abril e depois de cinco anos a viver do outro lado do Mundo, mais precisamente em Macau. Nápoles não é uma cidade fácil para se viver e mentiria se dissesse o contrário! Desconfio mesmo que não estou a exagerar quando afirmo Nápoles como a cidade de mais difícil digerabilidade da Europa. 
Há seis meses que estava a tentar formular uma opinião coerente sobre a cidade. O "Reality" conseguiu fazer-me chegar ao nirvana da questão em 115 minutos apenas. Garrone conseguiu o impensável: abrir-me a goela e enfiar a realidade napolitana a seco, sem dó nem piedade. 
Bem mais que o próprio exagero da trama do "Reality", foi o sofrimento do público sentado na sala de cinema a olhar para o ecrã que mais me abalou a consciência. O ódio e até o sentimento de negação de alguns espectadores em relação à miséria humana, que prolifera em algumas zonas desta cidade, em perfeito contraste com a compreensão da delicadeza e ingenuidade de quem aceita o seu povo como ele é. 
Nápoles é uma cidade que nos obriga a aceitar a nossa própria condição. Nunca tinha vivido este sentimento em nenhuma cidade europeia - falo principalmente daquelas onde vivi - apenas na Ásia vivi um sentimento idêntico. Nápoles é uma cidade de elevado teor humano. É o lixo, o crime organizado, a condução caótica, a lei sem rei nem roque e também é o paladar da melhor comida italiana, a gente de olhar franco, o café, o companheirismo, a tarantela, a gargalhada alta e em bom som!  
Escandalosa e encantadora; rude e preciosa; degredante e iluminada assim é Nápoles. Talvez o "Reality" não seja uma obra-prima como é o "Gomorrah", mas é seguramente um dos filmes que mais me falou ao coração. E fê-lo em napolitano.   
A meus olhos, o "Reality" é sinónimo de Arte, pois só a Arte me repugna de forma visceral enquanto me emociona a alma. 
Ainda bem que há filmes assim. 
E quem diz filmes, diz pessoas, lugares.  

A few days ago I saw "Reality" the new movie from Matteo Garrone. The very well known movie  "Gomorrah" has turn this italian director into an unquestionable successor to Roberto Rosselini's italian neorealism. After performing the masterpiece "Gomorrah" much was expected from this new creation. Cannes Film Festival arose to the occasion by awarding "Reality" the Grand Prix. A controversial awarding. Exception made to the director's technique, among critics there's no consensus about the plot. Some found it brilliant, others a complete failure. Critics aside, "Reality" is indeed a matter of extremes.
I'm living in Naples since last April, after five years of living in Macau, China. I've found Naples a non friendly city to live in and I would lie if I said otherwise. Naples is probably the hardest of all european cites to digest. 
From the past six months I've been trying to build a coherent opinion about the city. In 115 minutes only, "Reality" has made me reach nirvana on the subject. Garrone has done the unthinkable: he shoved the neapolitan reality down my throat and I swallowed it. 
Much more than "Reality"'s plot, it was the sitting theatre's audience that shook my conscience. The hatred and the denial among some spectators about human misery was in perfect contrast to the acknowledge of tenderness and ingenuity of those who accept their people as it is.
Naples has the power to force you to accept your own condition. I've never experienced this feeling in any European city I've lived in. Only in Asia I've had an identical feeling. Naples is a city of "high human content". It's full of waste, organized crime, chaotic driving, outlaws as well as the best Italian food, sincerity, coffee, fellowship, the tarantella, the laughing out loud!
Naples is outrageous and charming, rude and precious, degraded and full of light. "Reality" might not be compared to masterpiece "Gomorrah", but it is certainly one of the movies that has mostly touched my heart. 
For me, "Reality" is art, for only art can disgust my body as it thrills my soul.
Thankfully, there are movies like this.
And not only movies, but also people and places.