14/08/2014

A democracia de uma pandemia

Com quase 3 meses de vida, levei a minha filha a tomar as duas vacinas previstas pelo plano nacional de saúde. Foi uma dor de alma vê-la chorar enquanto era picada. Fico com o meu coração mirrado só de pensar nos soluços de choro daquele momento. Mas quero acreditar e acredito que é por um bem maior. Para ela e para a comunidade.

Ainda estava eu grávida quando volta e meia me punha a ler artigos sobre vacinação. Li sobre as vacinas, suas composições, seus efeitos, mas sobretudo sobre as doenças que defendem. Eu queria apenas informar-me, mas ao invés dei por mim num campo de batalha. Artigos - mais ou menos científicos - e opiniões - mais ou menos credíveis - contra a vacinação proliferam na net, nas revistas e até nos jornais. Artigos e opiniões a alarmar para a toxicidade exagerada de algumas substâncias inclusas nas vacinas que, apesar da sua inegável capacidade defensiva, são igualmente capazes de provocar reacções alérgicas algumas causadoras de lesões graves. 

Este corrente anti-vacinação acusa, com uma certeza quase divina, que uma das causas do autismo é a vacinação. Não me vou pôr aqui a aprofundar os comos, nem os porquês, mas apenas sublinhar que a corrente anti-vacinas se está a massificar. Até posso dar de barato o crescente ódio endereçado a algumas acções manipulativas (e excessivamente lucrativas) das farmacêuticas, mas pelo que percebi negar vacinas não é um acto justificado, simplesmente virou moda.

Sei bem que as vacinas podem, em alguma escala, ser demasiado agressivas para as crianças. Também sei que para as ajudar há que reforçar com higiene e alimentação correctas, esta última inclusive, com a vitamina C, que as ajuda a fazer frente a qualquer fraqueza física que a vacina possa potenciar. Mas longe deste discursos sobre males relativos e soluções práticas, ajuda recordar que algumas destas vacinas não só salvaram a vida de milhões de crianças como provocaram enormes mudanças no tecido social e até cultural da sociedade contemporânea - a título de exemplo basta referir a Fisioterapia como uma disciplina que surge exactamente como resposta à recuperação de milhares de casos de polimielite. 

Enquanto a discussão se mantém nos palcos opinativos posso aceitar e até aplaudir, mas quando se passa de uma discussão a uma acção marginal, sem uma reflexão apropriada e consubstanciada, apenas porque se ouviu por aí, a música já é outra!

Foi com surpresa que nas minhas leituras descubro que o sistema nacional italiano deixou de compreender desde 2012 obrigatoriedade na vacinação, visto cada vez mais pais recusarem este plano, mas aconselha vivamente a que seja respeitada segundo o calendário previsto para o bem de todos. No entanto, como notinha de rodapé, o mesmo sistema adverte que em caso de surto os pais das crianças não vacinadas podem ser levados à justiça. Ainda que, numa outra notinha de rodapé, avise que processos judiciais desses raramente são levados a bom porto. Deu-me vontade de chorar de tanto rir à gargalhada!

A coisa torna-se mais grave quando me apercebo que doenças fatais como a tosse convulsa e o tifo, erradicadas quase por completo graças a uma forte campanha de vacinação mundial nas três décadas seguintes à II Guerra Mundial, poderão regressar pelo simples facto dos Governos - embalados pela popularidade da moda anti-vacina - estarem a considerar, ainda que de forma muito ténue, o deixar em alguns casos de vacinar facultativamente. Ora se uma vacina chega a rondar os 100 euros, mais coisa menos coisa, e tendo em conta que muitas famílias nem sequer conseguem chegar ao final do mês com 10 euros no bolso, parece-me que a decisão está mais que tomada.

Não vou falar do desrespeito por décadas de pesquisa científica, do desespero de tantas mães que perderam os filhos, ou sequer, do sofrimento de crianças que sucumbiram por falta de uma luz ao fundo do túnel, isto é, uma cura, uma vacina.
 
O meu queixo cai - ainda mais - quando perguntando a esta e aquela mãe descubro que algumas crianças do meu círculo de conhecimentos não foram vacinadas por decisão dos pais, apesar da advertência dos pediatras.

Bom, perante este cenário pré-apocalíptico em que, claramente apenas me posso valer da misericórdia divina, decidi agir de acordo: crianças que não estejam vacinadas não entram em minha casa!
 
E acabou a conversa pois bem mais que doenças e/ou vacinas, com todo o mal que possam ser portadoras, a verdadeira pandemia é a ignorância.

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