28/11/2013

Eu e o Maestro

Era loira de olhos azuis. Azul também era o vestido de pregas com um cinto branco, a mesma cor das sabrinas. Era perfeita, alta, esguia e vinha dentro de uma enorme caixa de cartão com a frente em celofane. Era a minha nova e belíssima boneca e fiquei encantada quando a vi! 
Eu estava no final da rampa das chegadas do aeroporto e a boneca vinha em cima do trolley do aeroporto que o meu Pai empurrava. A Carmela, comprada lá para os lados do sul italiano da cidade de Bari, foi das bonecas que mais gostei e com a qual mais brinquei durante a minha infância.        
Este episódio é uma das minhas primeiras memórias em pequenina, deveria ter não mais de 4 anos, mas lembro-me deste acontecimento como se tivesse sido ontem. 
Mas naquele dia, na bagagem do meu Pai, a Carmela não era a única surpresa. Tão doce quanto a minha nova boneca, mas de um impacto que duraria toda a minha vida, vinha L'arca de Noè
O entusiasmo do meu Pai com a nova descoberta musical em formato LP tocou centenas e centenas, talvez milhares de vezes na aparelhagem lá de casa. Cada viagem que fazia a Itália representava um novo disco de Franco Battiato, uma nova descoberta musical e poética com o melhor dos significados para mim: o da infância. 
Sempre tive as letras de todas as músicas de Franco Battiato na ponta da língua, na maior parte das vezes sem sequer perceber o seu significado. Cresci a ouvir os sons de Battiato em repeat. São as suas músicas e as suas letras que melhor definem a minha infância. 
Depois veio a adolescência e o coração passou a bater mais forte por ritmos mais anglo-saxónicos, mas o Battiato tocava sempre em sottofundo.  
Um dia uns amigos madrilenos, conscientes da nossa afición familiar, compraram-nos bilhetes para um concerto de Battiato na capital espanhola. Tinhamos tudo planeado, estávamos prontos para fazer os 600km e ver Battiato, mas quis um daqueles enganos idiotas do destino que nos equivocássemos na data e a poucas horas do concerto percebemos que era claramente impossível chegar ao destino. Ainda hoje me arrependo profundamente deste equívoco.
Mais anos passaram, os discos de Franco Battiato continuaram a avolumar-se lá em casa. Havia sempre um novo disco, uma nova vertente, um novo som, um novo risco artístico e uma carreira que se revelava brilhante para quem entretanto e merecidamente ganhava o título de Il Maestro.
Pouco tempo depois de chegar a Nápoles vejo um cartaz no bairro de Chiaia onde estava escrito "Battiato", mais abaixo no mesmo cartaz lia-se "Concerto a Arena Flegrea". Acho que fiquei com lágrimas nos olhos. 
Comprei quatro bilhetes, para nós os dois e para os meus Pais, e uns meses depois ali estávamos nós, num anfiteatro ao ar livre com a chuva de Verão a ameaçar o espectáculo. Acompanhado de uma orquestra e de um público de impermeáveis e paixão feroz, Il Maestro desafiou a chuva. Foi um concerto inesquecível, um momento perfeito e uma viagem à minha infância. 
Depois desse vieram mais dois concertos, o último dos quais esta semana...e assim como os discos do Maestro também os concertos que vi foram todos diferentes entre si: diferentes sons, diferentes  participações e diferentes arranjos. A única coisa que se mantêm é a capacidade de Franco Battiato me fazer viajar pela minha infância, pela minha existência, pelo meu tempo, pelo meu passado e, surpreendemente, pelo meu futuro. 
Para já, estes sons fazem-me desejar que também o meu filho/a possa ter uma infância tão musicalmente inspirada quanto a minha! 

"Voglio Vederte Danzare" uma das primeiras músicas que ouvi de Battiato. Inevitavelmente, ver o Maestro a dançar nos anos 80 faz-me rir.
 
Com Anthony and The Johnsons. Uma das muitas fabulosas colaborações.
 
"Era de Maggio" é uma canção de língua napolitana escrita em 1885 pelo poeta Salvatore Di Giacomo e esta é seguramente uma das minhas interpretações preferidas.
 
Uma das muitas aventuras electrónicas e também um dos mais recentes trabalhos do Maestro.  

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